Poema aliterando em t e d

Ordenho o dia toda madrugada

Acordo e tomo o leite de ontem

Planto partes do futuro

Tiro da terra sementes mortas

O dia desce, arrasta a noite

Devagar, desfazendo desejos feitos às estrelas

Trocando tudo pela tirania da rotina tranquila

E o tic tac contante

Tic, desde o dia

Tac, temo a noite

Tic Tac, deixo a noite pelo dia

Tic Tac, troco o dia pela noite

Dreno a bebida do passado

Tomo na garganta o futuro

Sinto só o traço do presente

Todo o tempo dentro de portas trancadas

E o teto trincado,

Despedaçado, desarrumado, desmembrado,

Esconde a saída

O seu nome e um quarto vazio

Ficou nas pontas dos pé e esticou os braços, tocando levemente o objeto antes de segurá-lo com firmeza e trazê-lo para perto de si. Tinha uma textura que nunca havia sentido, era áspero e com ranhuras não muito profundas e quase invisíveis. Grandes olhos muito redondos e escuros decoravam sua cabeça redonda, e o corpo era vestido com calças vermelhas e suspensório. Para completar, uma folha verde nascia da ponta do nariz.

Por que você está triste? O boneco tinha uma boca vermelha que quase ia de orelha a orelha, mas Alex conseguia ver que aquele não era um sorriso sincero.

— Ele quer ser um menino de verdade.

Era o vendedor falando, lá do outro canto da loja. Só então Alex se tocou que a pergunta havia sido feita em voz alta. Agora ele tinha os fones no pescoço e um olhar interessado, os cotovelos apoiados no balcão e um sorriso divertido.

— Não conhece a história? — perguntou, e Alex negou com a cabeça. — Eu também não conheço muito bem, não sou muito de ler, sabe? Mas pelo que me contaram esse aí é triste porque é um boneco de madeira e queria ser um menino de verdade.

— Por que ele iria querer isso?

— Eu é que vou saber? Se você me perguntar, acho que ser de mentira deve dar muito menos trabalho.

Alex forçou um riso, colocou o boneco na prateleira novamente.

(Familiar demais.)

Poema com assonância em a

O palhaço tira a máscara da felicidade

E arde

Eu traço a valsa de prata com o laço

No compasso

No espaço

O astronauta larga a nave na margem

Nasce asas

Animal alado na estrada pela tarde

Liberdade

Acha o abraço

Claro, é amado!

A felicidade do palhaço arde

O compasso enlaça a prata numa valsa

A nave alada na margem pela tarde

E o astronauta em casa

Liberdade amada!

Arde com água, salada e guaraná

Relógio

Na gaveta de dentro:

Monstros embaixo da cama

Pão mofado

Cofre escondido no travesseiro

 

Na gaveta de fora:

Bomba automática

Máquina de costurar rugas

Ave caindo no meio do voo

 

Na gaveta de agora:

Fotografia instantânea

Ladrão invisível

Almoço subindo pela garganta

 

Cômoda redonda de prender no pulso,

Bolha giratória engolindo o mundo.

O homem que veio do céu

O homem que veio do céu

Tem buracos entre os dedos

E um corpo carnívoro

 

Deixou a varanda e a porta destrancada

Escolheu usar as estrelas de cobertor

Amanhecer com o Sol abrindo seus olhos

 

O homem que veio do céu

Tem uma máquina do tempo viajando pelo espaço

Noite grudenta, feita de geleia preta sem estrelas

Continentes se afundando no azul salgado

Uma bomba que separou e uniu tudo que recheia o tudo

 

Na estrada dentro do espelho

O homem que veio do céu matava a fome do seu corpo

Um ursinho brincando na grama

A mãe agarrada ao filho caindo de um precipício

As crianças com armas virando monges

 

Mas a distância não deixava rebobinar a sua alma

Passos para frente arrastando o passado pelo chão

Corpo quebrado e esquecido

Olhos incapazes de mudar a sua direção

 

O homem que veio do céu

Via a vida de cima, do topo, de fora

Uma explosão de cores viajando do dedão do pé até os cabelos

Combinada com a inescapável presença de passos invisíveis, mas ainda sonoros

 

O homem que veio do céu ainda está lá

Vivendo infinitamente o começo e o fim

Abençoado com a maldição da impossibilidade

Das mãos dadas na subida de uma montanha-russa

Poema aliterando p e b

O professor pregava palavras bonitas

Palavras brilhantes, pesadas, importantes

Roubei as palavras para podá-las

Busquei as pétalas brancas

Pintei de preto

Pingou em bege

Brequei pontuando

Depois quebrei os pontos

Aspas, parênteses, parágrafos

Blocos, pedaços, partes

Palavras em parafernalhas

Palavernalhas

Bolei um balão espacial, praticamente palavrial,

De presente para um bebê

O balão subia cuspindo pedaços de palavras

Quebradas, podadas, brecadas, despedaçadas

O bebê abraçou o balão e botou as palavras na boca

Babou um bê-á-bá de brinquedo